CACHAÇA E ÁGUA
RONALD MENDONÇA
MÉDICO
Em tempos de cortes e reajustes é sempre bom parar um pouco para refletir
sobre a relatividade das coisas. Especialistas, curiosos e palpiteiros vêm se debruçando
sobre a decisão de dona Dilma, “a presidenta de todos os brasileiros”, de reduzir 50
bilhões de um orçamento aprovado em dezembro.
O fato é que não há caixa para um salário melhor, nem pensar em concursos
públicos e, certamente, o funcionalismo federal vai amargar uma mixaria de reajuste,
se houver. Sem falar no imoral acréscimo de 60% que os parlamentares se auto
concederam, o estranho de tudo é o substancial aumento ao bolsa-família.
Aliás, o impagável líder do governo Cândido Vaccarezza, por cima da carne
seca, justificou o incremento nas bolsas com argumentos de um nobel. Seriam dois
bilhões de reais, nas mãos de treze milhões de felizardos, consumidos em garrafas
de cachaça ou garrafas de água. De toda maneira, o país trilhará o caminho da
prosperidade. Nem que seja do alcoolismo, da cirrose e da violência, os filhos diletos
da malvada.
É nessas horas que me retornam as crises de arrependimento. Deveria ter me
despido do meu detestável pequenoburguesismo e ter dado braçadas em direção à
esquerda para ficar assim loquaz. Em vez de estar atendendo consultas de oito reais
pelo SUS, hoje nadaria nas águas serenas das mamatas.
Entraria num sindicato, faria amizade com o Zé Dirceu e o Genoíno. De repente,
seria um deputado, se o bom Deus ajudasse, um senador. Quem sabe, até um líder
do Lula ou da Dilma. Posaria com roupas de grife, camisas escuras de gangster
americano, perfumes franceses... Teria musculosos seguranças, mansões nas praias
badaladas, fazendas de gado, boa parte em nome de laranjas. Mesmo desengonçado,
viraria objeto de desejo de sequiosas moçoilas.
Nas horas vagas, dissertaria sobre o meu passado glorioso. Exerceria meu
lado mártir e heróico. Diria que trago na alma as cicatrizes morais das perseguições,
das masmorras do arbítrio, frutos do meu tenaz combate à ditadura e em prol da
redemocratização. (Mas não ia dar carne a gato: jamais admitiria que minha obsessão
– era tão imaturo! - era impor uma ditadura à moda cubana ou albanesca. Esqueçam
essa parte).
Mas se nada desse certo, minhas braçadas seriam para organizar eventos
oficiais ou mamar numa gorda sinecura qualquer. No Carnaval – que ninguém é de
ferro – fantasiado de borboleta, sairia do meu casulo e iria para Jaraguá soltar a franga
e cantar a plenos pulmões: Você pensa que cachaça é água?

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