segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

UM TEXTO DE MARCIAL LIMA


UM CARNAVAL POSSÍVEL

“Cedendo aos encantos de um Midas abaianado”

MARCIAL LIMA

Retrocedendo no tempo, vamos encontrar uma
Maceió onde o poder público era um dos principais
indutores do carnaval. Em pontos estratégicos do Centro e
em alguns bairros, a exemplo de Bebedouro - a República
da Alegria - e em Ponta Grossa, que tinha na Praça
Moleque Namorador o Quartel General do Frevo, a
Prefeitura armava palanques para receber as bandas
carnavalescas. Eram as Maratonas, que começavam na
semana anterior indo até à madrugada da Quarta-Feira de
Cinzas. Nos anos 80, chegamos a ter a COC – Comissão
Organizadora do Carnaval, que abria espaço de
participação da comunidade na concepção e organização
da Festa de Momo. Éramos motivados a participar das
troças do Banho de Mar à Fantasia e dos blocos dos
diversos recantos da cidade.

Veio, depois, a pasteurização, levando o maceioense
de melhor poder aquisitivo - vestindo a mesma roupa,
fazendo a mesma coreografia, induzidos às mesmas
músicas, muitas de qualidade questionável - seguirem
processionais os “santos de sua devoção”. A criatividade
foi devorada pelo consumo de ídolos. Os menos
favorecidos, cognominados de povão, eram confinados na
pipoca, um espaço falsamente alardeado como

democrático. Olhando de cima, nos camarotes ou
resguardada nas sacadas dos apartamentos, lá estava
a “casa-grande”, estendendo-se aos espaços protegidos
pelos “cordeiros”, que fazendo as vezes de feitores, não
titubeiavam em “usar o chicote”, para impedir que alguém
da Senzala ousasse invadir os espaços dos com-abadá.
Na onda, até blocos que historicamente louvavam as
classes populares, perderam sua originalidade, cedendo
aos encantos de um “Midas abaianado”, trocando a
criatividade, pelos apelos dos precursores do rebolation.

Os poderes constituídos foram de uma incipiência de
fazer dó. Encantados, amiudadas vezes, pelas mordomias
e vitrines que lhes propiciavam a “área VIP”, mostraram-se
incapazes de aquilatar, com seriedade, em termos
sócioculturais, as perdas e ganhos. Reagindo ao
mesmismo, surgem a Seresta da Pitanguinha, o Pinto da
Madrugada, o Jaraguá Folia, onde muitos foliões
encontraram algumas linhas de fuga, abrindo espaços para
esse carnaval que, não poucas vezes, nos propiciam uma
grande comunhão festiva. Ressurgem os bailes, as
matinês e algumas tentativas de descentralização do
carnaval popular. Viu-se daí que existe um grande vácuo a
ser ocupado, um significativo potencial, um mar de
possibilidades.

Juntem-se a isso as escolas de samba, os blocos de
bairros, os bois, e veremos que um carnaval em Maceió é
possível. Só falta a sociedade civil se impor e o poder
público, indo além da mera “ajuda”, dar-se conta de seu
papel catalisador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário