SEVERINO BAIACÚ
Severino nasceu nos idos de 1920, em um bairro de classe média baixa. Muitos amigos. Jogavam bola no campo de terra batido, viviam as primeiras experiências da vida.
Bilau, Peu, Zé Curió, Formiga e Biu eram seus amigos prediletos, cresceram juntos, faziam traquinagens infantis, aprenderam a se defender em um mundo de dificuldades.
Iniciaram a vida boêmia na única venda que existia, em frente à casa do Dr. Bruno, advogado de sucesso, morava em uma casa de luxo. Era esnobe, tinha carro, motorista, gostava de exibir seu sucesso. Os amigos entravam, saiam, todos de carro, grandes festas.
Severino ganhou o apelido de Baiacú porque sempre que ficava zangado inchava a cara, era o mais esperto e safado da área. Enrolava todo mundo. Não gostava da pobreza, inventava jeito de parecer rico.
Quando queria beber com os amigos e não tinha dinheiro, ia para longe do bairro, arrumava uns livros grossos, uma chave de carro, colocava em cima da mesa, pedia bebida cara, tira gosto, dizia que havia ganhado um dinheiro extra , naquela noite era tudo por conta dele. Mandava todo mundo sair primeiro, esperar na esquina, pedia mais uma bebida, ia ao banheiro , escapava. Deixava os livros e a chave pra o garçom não notar. Fingia ser intelectual. Nunca mais voltava.
Iam de taxi para casa, deixava-os primeiro, mandava o taxi parar em frente à casa de D. Lúcia. Muro baixo, portão sem chave, entrava pelo lado, fingia buscar dinheiro, pulava o muro dos fundos, ia pra casa, morrendo de rir. No dia seguinte a dona da casa era questionada , chamava os vizinhos, provava morar só, não conhecia o malandro.
Certa noite Dr. Bruno promoveu a maior festa do bairro, nunca se vira tanto carro na rua. Nenhum dos amigos foi convidado, ficaram na venda da frente bebendo, imaginando como seria participar de uma festa sem limite de gastos, onde bebida e comida eram fartas. Como forma de protesto, resolveram armar uma brincadeirinha com os convidados.
Vizinho à venda existia uma borracharia com um tonel de graxa. Pincel na mão, foram em todas as maçanetas das portas, passaram a graxa. Era impossível abrir a porta sem ficar com as mãos sujas , estragar a roupa.
Sua fama de esperto serviu para conseguir um emprego de vendedor de livros, fez sucesso. Vendia mais que todos os outros juntos. Estava na hora de casar, ajeitar família.
Conheceu Cristiana, uma morena linda, desejada por todos, venceu a guerra, foi escolhido como marido. Logo providenciaram o primeiro filho. Ela era um assombro, em 2 meses já estava sambando, sem marca alguma da gravidez.
Baiacú foi promovido, passou a usar terno de linho branco, comprou seu primeiro carro, iria viajar muito. Andava sempre de vidros fechados para todos pensarem que tinha ar condicionado. Quase ficou desidratado de tanto suar. Era pobre, queria parecer rico.
As viagens faziam Cristiana ficar em casa, sempre aparecia um problema hidráulico ou elétrico, Chamava Peu pra ajudar. Foram ficando íntimos, confessava sua solidão, envolveram-se. Muita energia, pouca assistência, não podia ser diferente.
Baiacú descobriu, desesperou-se, tão esperto, traído. Foi elegante, saiu de casa, corno assumido. Sorte nos negócios, azar no amor. A vida havia dado o troco.

Parabéns Sandra pelo texto! Retrata muito bem os muitos Baiacús que vivem de aparencia em nossa sociedade.
ResponderExcluirBjs
Márcia Carvalho