Houve um tempo em que os leitores se referiam à Folha no plural. Afinal, até os anos 50 havia três Folhas: a da Manhã, a da Tarde (depois relançada) e a da Noite. Em 1960, aFolha de S.Paulo reuniu os títulos, e hoje se diz Folha, no singular.
O plural, no entanto, aplica-se bem à história do jornal. Em 90 anos, houve várias Folhas: a dos anos 20, vespertina e coloquial; a dos anos 50, que vivenciou um processo de modernização; a dos anos 60, que se tornou a ponta de lança de um conglomerado; a dos anos 70, que ganhou credibilidade com a abertura política; a dos 80, que mudou o jornalismo brasileiro com o Projeto Folha; e a atual, que foi pioneira na integração das plataformas impressa e on-line.
Os nove momentos abordados neste texto mostram como a Folha é plural -e singular.
Oscar Pilagallo, jornalista, é autor de "A Aventura do Dinheiro" e "A História do Brasil no Século 20", entre outros
| 2.jul.1951/Folhapress | ||
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| Carro utilizado pela reportagem e na entrega de jornais nos anos 50 |
O NASCIMENTO DE UMA FOLHA
Se houvesse uma bíblia do jornalismo brasileiro, lá estaria escrito que a Folha nasceu de uma costela do jornal "O Estado de S. Paulo". Com o título de "Folha da Noite", a publicação que daria origem à Folha de S.Paulo nasceu em 19 de fevereiro de 1921 por obra de um grupo de profissionais egressos do jornal da família Mesquita, em cujas oficinas começou a ser impressa.
Os jornalistas, entre eles Júlio de Mesquita Filho, que escreveu o "programa" do jornal publicado na primeira edição, haviam ficado órfãos da edição vespertina do "Estado", informalmente chamada de "Estadinho", que fizera sucesso durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18).
| 19.fev.1929/Reprodução |
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| Personagem Juca Pato, do caricaturista Belmonte |
Ao contrário do matutino, mais sisudo, o "Estadinho" se permitia um coloquialismo que era do agrado dos jovens jornalistas. Depois de seis anos de vida, o vespertino foi fechado. "Não nos conformávamos com o seu desaparecimento. Daí a ideia de 'Folha da Noite'", escreveu Paulo Duarte, um dos integrantes do grupo.
Duarte e Mesquita logo voltaram ao "Estado", e a "Folha da Noite" ficou sob a responsabilidade de outros dois fundadores, Pedro Cunha e, sobretudo, Olívio Olavo de Olival Costa, responsável pela política editorial. Não à toa o jornal era chamado de a "Folha do Olival".
Mas bem que poderia ter sido também a "Folha do Belmonte", o caricaturista Benedito Bastos Barreto, que, com seu personagem Juca Pato, deu identidade à "Folha da Noite".
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A MODERNIZAÇÃO DE NABANTINO
A Folha moderna começou a nascer com José Nabantino Ramos, que em março de 1945 assumiu o controle da "Folha da Noite" e da "Folha da Manhã", esta criada em 1925. Seu primeiro movimento foi afastar o conde Francisco Matarazzo Júnior, que havia adquirido o jornal para usá-lo como tribuna contra Assis Chateaubriand, que o atacava pelas páginas das publicações dos Diários Associados.
Uma vez no comando, Nabantino tratou de imprimir às "Folhas" uma política editorial pautada pela imparcialidade. Se nem sempre teve êxito, diferenciou os jornais da concorrência, toda ela alinhada ao conservadorismo da UDN (União Democrática Nacional).
Em 1948, publicou o Programa de Ação para as Folhas, tentativa pioneira de conceituar a atividade em termos editoriais e empresariais, o que foi consolidado em 1959 num documento de 275 páginas.
Seu legado foi um jornal de porte médio, a Folha de S.Paulo, fusão das Folhas da Manhã, da Tarde e da Noite concretizada em 1º de janeiro de 1960.
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A FORMAÇÃO DO CONGLOMERADO
O primeiro passo em direção ao conglomerado jornalístico foi dado em 13 de agosto de 1962, quando Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho compraram a Folha. Assim que saldaram as dívidas contraídas para pagar o negócio, os sócios começaram a ampliar o grupo.
Em 1965, entraram no ramo do jornalismo popular com a aquisição da "Última Hora" e do "Notícias Populares". No mesmo ano, compraram um terço da TV Excelsior, então líder de audiência. Dois anos depois, foi relançada a "Folha da Tarde". E surgiu o "Cidade de Santos", enquanto os dois sócios assumiam o controle administrativo da Fundação Cásper Líbero.
Com tamanho apetite para incorporações, a concorrência desconfiou da origem dos recursos, que na realidade eram prosaicas operações bancárias.
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O PAPEL NA DITADURA
A Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente João Goulart, como fez o "Estado", mas apoiou editorialmente a ditadura, limitando-se a veicular críticas raras e pontuais.
Confrontado por manifestações de rua e pela deflagração de guerrilhas urbanas, o regime endureceu ainda mais em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. O jornal submeteu-se à censura, acatando as proibições, ao contrário do que fizeram o "Estado", a revista "Veja" e o carioca "Jornal do Brasil", que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.
As tensões características dos chamados "anos de chumbo" marcaram esta fase do Grupo Folha. A partir de 1969, a "Folha da Tarde" alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da "Folha da Tarde" a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, um dos 'terroristas' mais procurados do país, morto em São Paulo no final de 1969.
Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da "Folha da Tarde" à repressão contra a luta armada.
Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins.
| 2.dez.1948/Folhapress | ||
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| Linotipistas trabalham em gráfica na rua do Carmo, nos anos 40 |



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