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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

UM TEXTO DE BENEDITO RAMOS - GAZETA DE ALAGOAS

ELOGIO AO PECADO
Por: » BENEDITO RAMOS – escritor.
Nenhum personagem da história representa melhor a Idade Média, principalmente o período de transição da idade antiga, do que Agostinho de Hipona. Nascido em 313 d.C. este santo cristão conhecido como um dos doutores da Igreja, assistiu de perto o ocaso do Império Romano no ocidente. Viu o cidadão romano perder as suas referências diante da corrupção e da imoralidade reinante e ficar a deriva de uma pátria moribunda. Fez parte deste mundo, juntamente com Mônica, sua mãe e experimentou também o gosto de ignorar o pecado à luz de seu tempo. Em sua frase mais marcante, aquela que guiou a alta idade média, colocou a fé adiante da razão. No entanto sua inquietude com mundo, registrada em sua obra, revela um homem obstinado por conhecer a verdade que ele próprio diz rejeitar em favor da fé.

Mais do que As Confissões, A Cidade de Deus, um livro menos conhecido, faz um relato fiel da Roma desesperada, agredida e agitada pelas hostes inimigas. Começa pelo saque de 410 por Alarico, o Rei dos Visigodos, onde a antiga capital experimentou privações e miséria. É quando Agostinho questiona a validade dos deuses imperiais que não impediram tal fatalidade. E isto é extremamente importante para a história, pois demonstra claramente que mesmo sendo a religião oficial, o cristianismo ainda disputava um alicerce de crenças e cultura que não se apagaria pela coerção da Igreja. O paganismo é o grande vilão que assustará a Igreja, na chamada Idade das Trevas e que seria combatido ferozmente pela Santa Inquisição.

Mas é, sobretudo, diante do pecado, este fantasma que persegue Agostinho durante toda a sua vida, que ele se debruça para traduzir a sua essência, esmiuçar a sua origem, no seu mais profundo questionamento ou justificativa, talvez, a tudo o que havia declarado nas suas Confissões, obra terminada em 398: “Arrebatava-me os espetáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões”.(Livro III, 2.2) Uma prova do quanto Roma, no seu erotismo, fascinava sua gente. E Agostinho era um desses cujo fogo ardia de desejo a ponto de declarar: “Era para mim mais doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada(...)” (Livro III-1.1)

Não era fácil manter a castidade que a Igreja necessitava. Não, simplesmente a castidade sexual, a abstinência do coito, porém a do pensamento, da malícia, do erotismo e da libido. Devemos considerar que o celibato imposto pela Igreja aos sacerdotes impede apenas o casamento e não a castidade da qual Agostinho se referia.

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