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sábado, 6 de setembro de 2014

DEU NO JORNAL DA BESTA FUBANA - UM TEXTO DE RUY FABIANO

A DESCONSTRUÇÃO DE MARINA

Ruy Fabiano
A ribalta eleitoral comporta um número infindável de truques e malabarismos, em grande parte destinados a ocultar a realidade de cada candidato e a torná-lo um personagem fictício irretocável.
No script de cada qual, elaborado por marqueteiros, especializados no ilusionismo verbal, promete-se um país melhor nos quesitos em que é pior: educação, saúde e segurança.
Não se sabe, porém, o que pretendem para operar a metamorfose. Basta o verbete mágico “prioridade” para garantir que tudo vai mudar. É mais ou menos como se um médico, após diagnosticar as mazelas do paciente, lhe garantisse uma cura futura, mas com pagamento à vista, num cheque em branco.
Adicionalmente, para evitar que o paciente procure tratamento alternativo, passa a desconstruir os concorrentes. É basicamente o que ocorre, seja pelo formato dos debates, seja pela limitação do horário eleitoral gratuito, a que poucos assistem.marina_lula2
Ao ascender ao primeiro plano da campanha, Marina Silva tornou-se o alvo preferencial. O mais credenciado a desconstruí-la, Aécio Neves, é quem menos o faz – ou o faz de forma tão polida que nem ela (nem ninguém) percebe.
Marina, afinal, promete o novo, mas vem do velho. É, nas palavras de Lula, “uma petista de raiz”, fundadora do partido e, por extensão, corresponsável pelo ambiente político por ele gerado – e hoje fator de repugnância de expressiva parte do eleitorado, que, no entanto, não parece se aperceber disso.
Marina é fundadora da CUT no Acre e, por anos, esteve ao lado de grupos como o MST e ONGs indígenas e ambientais, que investem contra o setor mais próspero da economia, o agronegócio.
Combateu o uso dos transgênicos (e hoje o nega), a construção de hidrelétricas em Rondônia e no Pará. E promete apoio ao decreto 8.243, que traz a revolução bolivariana para o Brasil. São questões que afetam diretamente a vida de cada cidadão, que nela vê o novo, sem perceber seu envolvimento com o que não deu certo, genericamente chamado de “velho”.
O PT tenta desconstruí-la pelo avesso, isto é, procurando associá-la ao conservadorismo. É ridículo colocar a questão gay na sucessão, inclusive porque, além de irreal – não há nenhum surto homofóbico no país -, as leis que possam afetá-la não dependem do presidente da República, mas do Congresso Nacional. Precisa ser cobrada dos candidatos ao Parlamento.
Marina é evangélica, assim como Lula e Dilma juraram, nas respectivas eleições que venceram, ser católicos piedosos, não se eximindo de visitar também templos evangélicos e sinagogas. Aliás, o país, em sua esmagadora maioria é religioso e cristão. Portanto, por aí, é possível que Marina agregue ainda mais votos.
Compará-la a Jânio Quadros e Fernando Collor, não é despropositado, mas requer mais explicações. No quesito inexperiência – explorado pelo PT -, não faz sentido.
Marina realmente não governou coisa alguma, mas nem Dilma, nem Lula haviam governado quando se elegeram. Já Collor e Jânio chegaram à Presidência com razoável experiência: Collor havia sido deputado federal, prefeito biônico de Maceió e governador de Alagoas; Jânio havia sido vereador, prefeito e governador de São Paulo. O que há em comum entre os três – Jânio, Collor e Marina – é o desprezo ao quadro partidário e o apelo à democracia direta, que Lula e Dilma tentaram sem êxito e que Marina promete efetivar, sob o rótulo de “nova política”.
Por aí também, a bola está com Aécio, que tem compromisso com as instituições, nenhum viés populista e se opõe ao decreto bolivariano 8.243, que, no entanto, se escusa de mencionar.
O ponto mais cômico da tentativa do PT de demonizar Marina é a de querer colocar sob suspeita suas rendas de palestrante e um possível caixa-dois de sua campanha, questões em que o partido de Lula e Dilma possui doutorado.
A cúpula do PT está na cadeia, assim como o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, que disse que, se abrir a boca, “não haverá eleições”. Hipérbole à parte, está abrindo a boca – e nem Marina, nem Aécio têm nada com isso; ao que se saiba, só se serviram dos serviços da empresa ao abastecer seus carros nos postos de gasolina. Do que se depreende, o PT não estava, nem está, apto a lidar com o fenômeno Marina.
E o PSDB definitivamente não foi criado com o DNA de oposição. Critica pedindo desculpas. Não fala dos mais de 50 mil assassinatos por ano no país, do narcotráfico (responsável pela maioria dessas mortes), nem do aumento do número de analfabetos. Mas promete governar com “previsibilidade”. É pouco.

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