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sexta-feira, 16 de maio de 2014

DEU NO JORNAL DA BESTA FUBANA - LUIZ BERTO - EDITOR GERAL

CANHOTOS E DESTROS: TOLÔTES DO MESMO PINICO
Dois assíduos leitores fubânicos, um do Mato Grosso do Sul e outro do Paraná, me escreveram mensagens comunicando que estavam chateadíssimos comigo. O leitor do Mato Grosso usou o adjetivo “decepcionado“, e o leitor paranaense se disse “frustrado“.
Nos dois casos, as queixas eram idênticas. Só mudavam os personagens objetos das queixas.
Eles reclamavam porque eu não publiquei material que me mandaram. Material de campanha eleitoral pra prisidente da república banânica, exaltando os candidatos de suas preferências. Eram notícias, artigos, reportagens, entrevistas, ilustrações, cartazes e fotos.
O leitor do Mato Grosso é fã ardoroso de Aécio Neves. E o leitor do Paraná, é admirador incondicional de Jair Bolsonaro. E cada um acha que uma destas duas figuras deveria ser o próximo presidente da República Federativa de Banânia.
Não respondi diretamente às queixas de nenhuma deles, e aproveito pra fazê-lo agora, nesta postagem, pois o recado vai servir pra mais outros leitores fubânicos.
A primeira explicação é a seguinte: este Editor e os espaços de que ele dispõe no JBF para emitir suas opiniões políticas, como a seção Deu no Jornal e a seção A Palavra do Editor, são sempre do contra. De oposição. Contra o gunverno. Contra qualquer gunverno. O anterior, o atual e o próximo. Só falo “a favor” a pulso, quando não tem outro jeito, quando estou num beco saída.
Sigo à risca a máxima do meu guru, Millôr Fernandes, um dos sujeitos mais intelectualmente honestos que este país já teve o privilégio de ver nascer. Ele dizia: “Imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados“. Eu num sou bem “imprensa”, embora muita gente me chame de “Sr. Jornalista“. No máximo, sou uma “imprensinha”, pra lá de escrota. Quando muito, edito uma merda que tem o nome de “jornal”.
Jornais, portais e blogues “a favor“, sobretudo pagos, muito bem pagos, com dinheiro público, é o que não falta em Banânia.
Todavia, existem espaços no JBF onde eu não me meto e cada um tem inteira liberdade pra fazer campanha pros seus candidatos preferidos. Qualquer leitor pode botar o que quiser na seção de cartas e no espaço dos comentários. E muitos leitores usam este recurso, colando links em seus comentários. Links contendo matérias favoráveis aos seus políticos prediletos.
Já quanto aos colunistas, que são exatamente 60 (isto mesmo: 60 colunistas!) eles são donos absolutos dos seus territórios. Não há qualquer recomendação, restrição ou censura ao que eles escrevem. Não me meto de modo algum em seus textos. Podem, inclusive, discordar e esculhambar com este Editor e suas opiniões.
E podem, também, fazer propaganda dos seus candidatos preferidos. Querem um exemplo? O colunista Jorge Filó é um militante político de esquerda, situacionista, lulista e dilmista roxo.  De sua coluna, intitulada No pé da parede, publicada no dia 4 de fevereiro passado, vou transcrever dois trechos ao pé da letra: 
“Vou manter meu voto, consciente, em Dilma, como já fiz uma vez – e outras duas vezes com Lula – e botar fé que os avanços vão continuar.” (…) ” 2014 eu voto Dilma de novo!”
A segunda explicação que dou aos dois leitores, que se chateaream comigo porque não publiquei o material que me madaram, é que este Editor não tem qualquer simpatia, nenhuma simpatia mesmo, nenhum apreço ou admiração, pelos candidatos dos dois, Aécio Neves e Jair Bolsonaro.
Eu acho Aécio Neves e Jair Bolsonaro, ressalvadas as diferenças de estilo e de atuação de cada um, duas grandes merdas desta fossa chamada pulítica banânica. Se depender do meu voto pra que sejam eleitos, vão perder o pleito.
Sobre Aécio Neves, eu já emiti inúmeras, várias opiniões e nele baixei o cacete por diversas vezes. Quem fizer uma busca no JBF, vai encontrar várias postagens assim. 
Quanto a Jair Bolsonaro, eu o acho uma figura sinistra, repelante, fascista de extrema direita e sem qualquer preparo ou magnitude pra exercer a Presidência da República (aqui com maiúsculas e a ortografia correta…) e respeitar sua liturgia. A sua truculenta doidice é materializada na maneira com que age, fala e faz, sem medir consequências, ou seja, de uma maneira absolutamente incompatível com quem pretende presidir um país.
Desde que me entendo por gente que me interesso por assuntos políticos e sempre procurei me manter informado sobre tudo que acontece nesta terra. Principalmente sobre o período militar e, a seguir, a redemocratização, até chegar aos dias atuais, com o Partido dos Trabalhadores no poder.
Lembro-me muito bem de quando Jair Bolsonaro era capitão do exército, na ativa, cursava a Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO) e assinou um artigo bombástico na revista Veja, no mês de setembro de 1986, protestando contra os baixos vencimentos dos militares.
Foi punido com prisão. O fato teve uma repercussão enorme e foi a partir de então que ele começou a se preparar pra entrar na política e a alimentar o seu curral eleitoral de votos cativos, basicamente composto por colegas de farda e familiares.
ARTIGO BOLSONARO
No ano seguinte, segundo semestre de 1987, Bolsonaro protagonizou um enredo mais espetacular ainda. Uma novela bem mais excitante do que escrever um artigo pra revista Veja. E, neste novo lance, a revistona da Abril estava novamente envolvida. 
Foi a partir daí que seu nome se consolidou definitivamente, elegendo-se vereador no Rio de Janeiro em  1988 e, em seguida, em 1990, conseguindo seu primeiro mandato de deputado federal, seguindo-se outros quatro mandatos consecutivos.
Vou transcrever um trecho de matéria publicada na página Observatório da Imprensa, em abril de 2011, tecendo comentários sobre a relação de Bolsonaro com a revista Veja, desde que nela foi publicado o artigo cuja reprodução está na ilustração acima:
No segundo semestre de 1987, finda a ditadura e já sob o governo civil de José Sarney, a economia estava combalida em razão do fracasso do Plano Cruzado. A inflação era alta, tendendo a índices estratosféricos, e grassava forte insatisfação nos quartéis devido à política de reajustes dos soldos dos militares – além, é claro, do incômodo, sobretudo entre a oficialidade média, pela perda do poder político que gozaram por 21 anos seguidos.
Bolsonaro tornou-se fonte da revista. Em meados de outubro 1987, a prisão de outro militar, capitão Saldon Pereira Filho, pelo mesmo motivo, levou à Vila Militar a repórter Cassia Maria, de Veja, destacada para repercutir o ocorrido. Ali ela conversou com Jair Bolsonaro, que estava acompanhado de outro capitão e da mulher deste.
Sob condição de sigilo, a mulher do militar contou à repórter – e depois Bolsonaro e seu colega confirmaram – que estava sendo preparado um plano batizado de “Beco sem saída”. O objetivo era explodir bombas de baixa potência em banheiros da Vila Militar, da Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende (RJ), e em alguns quartéis. A intenção era não machucar ninguém, mas deixar clara a insatisfação da oficialidade com o índice de reajuste salarial que seria anunciado dali a poucos dias. E com a política para a tropa do então ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves – que teria sua autoridade seriamente arranhada com os atentados.
“Serão apenas explosões pequenas, para assustar o ministro. Só o suficiente para o presidente José Sarney entender que o Leônidas não exerce nenhum controle sobre a tropa”, ouviu a repórter de Ligia, mulher do colega de Bolsonaro, identificado com o codinome de “Xerife”.
A repórter havia apurado uma bomba, no sentido literal e no figurado. Veja não respeitou o off – no que fez muito bem, neste caso, pois do contrário estaria acobertando atos terroristas – e quebrou o pacto de sigilo com a fonte. A história toda foi contada nas páginas 40 e 41 da edição 999 (de 27/10/1987) da revista. (Ilustração a seguir)
BOLSONARO-BOMBAS
A repórter Cassia Maria anotou em seu relato:
“‘Temos um ministro incompetente e até racista’, disse Bolsonaro a certa altura. ‘Ele disse em Manaus que os militares são a classe de vagabundos mais bem remunerada que existe no país. Só concordamos em que ele está realmente criando vagabundos, pois hoje em dia o soldado fica o ano inteiro pintando de branco o meio-fio dos quartéis, esperando a visita dos generais, fazendo faxina ou dando plantão’. Perguntei, então, se eles pretendiam realizar alguma operação maior nos quartéis. ‘Só a explosão de algumas espoletas’, brincou Bolsonaro. Depois, sérios, confirmaram a operação que Lígia chamara de Beco sem Saída. ‘Falamos, falamos, e eles não resolvem nada’, disseram. ‘Agora o pessoal está pensando em explorar alguns pontos sensíveis.’
Sem o menor constrangimento, o capitão Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio. O explosivo seria o trinitrotolueno, o TNT, a popular dinamite. O plano dos oficiais foi feito para que não houvesse vítimas. A intenção era demonstrar a insatisfação com os salários e criar problemas para o ministro Leônidas.
ccqq
(…)
Nervoso, Bolsonaro advertiu-me mais uma vez para não publicar nada sobre nossas conversas. ‘Você sabe em que terreno está entrando, não sabe?’, perguntou. E eu respondi: ‘Você não pode esquecer que sou uma profissional’.”
Intenderam tudinho, num é? Pois é isso mesmo.
Ao entrar na luta por melhores salários com este tipo de comportamento, Bolsonaro renegou flagrantemente dois pilares básicos da instituição militar: a hierarquia e a disciplina.
E isto porque era um simples capitão, um oficial subalterno, imagine um sujeito assim como Presidente da República que, segundo a letra da Constituição, é o Comandante Supremo das Forças Armadas.
Antes da Constituinte de 1988, a oposição inventou de candidatar pelo MDB um militar dissidente, ex comandante da Brigada de Paraquedistas, o general Hugo Abreu, pra concorrer à sucessão de Figueiredo.
Tancredo Neves, raposa mineira cheia de sabedoria, ponderou:
- Presidente da República tem que ser um sujeito cauteloso, que olha pros dois lados antes de atravessar uma rua e desce uma escada com muito cuidado e cautela. E vocês querem botar na presidência um sujeito que pula de paraquedas???!!!
Agora, imaginem na Presidência da República um cabra que queria soltar bomba pra conseguir melhores salários…
Meus caros leitores da extrema direita que se decepcionam comigo é por uma razão muito simples: não costumam ler o que eu escrevo ou, então, leem e não prestam atenção.
E eu não me canso de repetir: quem faz oposição ao gunverno do PT não é necessariamente da direita. É, sobretudo e basicamente, gente que enxerga a realidade sem paixão político-ideológica, gente ética, gente esclarecida e com vergonha na cara.
Um eleitor que vota em Bolsonaro pra prisidente é tão tresloucado e inconsequente quanto um que vota em Lula.
Lá no Palácio do Planalto já tivemos um vaselina mentiroso. Deus nos livre de um guerreiro furioso.
Os direitistas que votam em Bolsonaram vão ficar putos comigo. Os esquerdistas que votam em Lula vão ficar putos comigo. E eu vou ficar numa felicidade enorme de ser esculhambado pelos dois times.
E vou continuar onde sempre estive.

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