Páginas

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

BLOG DO HOMERO FONSECA


A Flimar ou a arte do encontro

RicardoZOOM
Lêdo Ivo, Homero Fonseca e Carlito Lima: no cafezinhoa ideia de reeditar "Os Escorpiões"

Positivamente, os ranzinzas que apostrofam os eventos literários estão deixando a bile falar alto demais. Já comentei por aqui suas invectivas, a principal das quais é a “espetacularização” do fazer literário. Não lhes falta totalmente razão, mas há eventos e eventos. Tentando ver o copo meio cheio, ao invés de meio vazio, vejo nessas ocasiões a oportunidade de divulgar os livros, dirigir-se diretamente ao leitor - este ser tão desprezado -, conhecer tendências, travar contato com os pares e amealhar um dinheirinho, pois, não sendo latifundiário nem funcionário público, é muito difícil para um escritor viver dos livros (os que conseguem somam, ao talento essencial, marketing e muita sorte). Bom, esse nariz de cera é para comentar a recente II Flimar – Festa Literária de Marechal Deodoro, a bela cidade antiga vizinha a Maceió. Organizada pelo incansável Carlito Lima, teve a curadoria de Maurício Melo Junior, que suou (literalmente) também mediando quase todas as mesas, com a colaboração intensa de Ovídio Poli Junior, escritor e também organizador da Off Flip, criador de um personagem antológico, o cavalo Políbio, estupendo protagonista de um conto antológico.

Este ano, encontrei a cidade melhor, mais limpa e com uma nova orla, e o próprio evento mais consolidado (pela diversidade das mesas, excelente nível dos convidados e pelo passo dado na profissionalização, ao remunerar os escritores locais, modestamente, é verdade, mas já é um passo). A festa envolve toda a cidade e tem articulação com as escolas e o alunado, com programação de oficinas, palestras e encenações para a moçada.

Impressionante a vitalidade do poeta maior Lêdo Ivo, o homenageado da festa: não se limitou à cerimônia inaugural de confetes nem a ouvir a análise de sua obra pelo poeta Alexei Bueno; assistiu a praticamente todas as conferências e debates, dando apartes e fazendo comentários. Do alto dos seus 81 anos, estava atento e confessou haver descoberto alguns autores e autoras novos, que lhes mereceram generosa atenção.

Uma placa registrava no auditório a palestra de Marina Colasanti, que emocionou a plateia na versão 2010 da Flimar, sobre o que restaria se os livros fossem retirados de sua vida, ideia inusitada e justa de Carlito Lima.

Muita gente boa passou por lá. Antonio Torres (a quem revelei que, nos anos 70, dividíamos o mundo entre os que haviam lido Essa Terra e os que não o leram), Ignacio de Loyola Brandão, Affonso Romano de Sant’Anna, Marçal Aquino, Flávio Carneiro (esses dois fizeram uma defesa competente da literatura policial), os poetas Marcus Accioly, Salgado Maranhão e José Inácio Vieira de Melo, Luiz Ruffato, Luiz Pimentel, Luiz Berto (constelação de luízes!) e o heróico editor do Rascunho, Rogério Pereira. Sidney Rocha fez uma palestra densa sobre “Uma Nova Estética Nordestina”, recusando os estereótipos, mas valorizando a tradição como base para a criação de uma obra pessoal. Lucia Bettencourt e Ana Paula Maia compuseram a mesa “Novas Vozes Femininas”, onde suas personalidades diferentes e suas obras distintas revelaram, entretanto, o mesmo encanto pela Literatura. Houve ainda palestras e apresentações musicais de grupos de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, apresentação de pop star de Jessier Quirino, recitais do declamador local Chico de Assis, poetas e cordelistas.

Uma das características que distinguem a Flimar são o tempo de permanência e a proximidade entre os convidados, permitindo um contato mais pessoal e estreito entre essa raça febril dedicada aos livros. Nesse ponto, assemelha-se à Bienal do Acre, idealizada e coordenada por Pedro Vicente Sobrinho na agradável Rio Branco. Assim, pude trocar ideias com Luiz Ruffato, com quem ando conspirando uma antologia da prosa proletária no Brasil. E receber de Nélson de Oliveira o último livro de Luiz Bras, Muitas Peles, com excelentes pequenos ensaios sobre Literatura. E ouvi de Lêdo Ivo uma sugestão que passarei a quem de direito: reeditar Os Escorpiões, do recifense Gastão de Holanda (1919-1997), escritor, design e editor, fundador do Gráfico Amador, romance que arrebatou o Prêmio IV Centenário de São Paulo, em 1954, que me fascinou na juventude e anda fora de catálogo.

Ia esquecendo que bati um papo com Maurício Melo Junior sobre “O Espaço do Riso e o Novo Picaresco no Brasil”.

Enfim, valeu!
Iracema RodriguesZOOM
Lucia Bettencourt e Ana Paula Maia: diferenças e encantamento

Nenhum comentário:

Postar um comentário