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quinta-feira, 7 de abril de 2011

HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA - Carlito Lima

O ASSALTO

                                                         
     Dona Zulmira teve dois filhos, dois Zé, Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamou o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, até hoje os mais íntimos só o chamam de Zé Pequeno, sem cerimônia. Tornou-se um ótimo comerciante, chegado às mulheres, era solteirão convicto até a chegada de Jandira, uma gostosa prima, há muitos anos morando no Rio de Janeiro.  Zé Pequeno ficou encantado com aquela vistosa mulher, loura, vestido decotado, divertida, sem meias palavras dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Por conta disso escandalizou a família e o bairro. Era segredo a profissão daquela moça no Rio, especulava a maldade humana. Entretanto, Zé Pequeno sabia o que queria, terminou casando-se com a bela Jandira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres no Zé Pequeno. Com sete meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, sua distinta estava de abraços com um rapaz, um mascate pernambucano. Zé pegou-a saindo do motel. Não houve acordo, houve escândalo. Foi a crônica da galha anunciada.
       Zé Pequeno passou um tempo se entregando aos braços das putas, em casa de massagem ou telefone, anúncio de jornal. Certo dia entrou na sua loja de material de construção, Angelita, colega de infância, estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo o sábio Zé Pequeno casava novamente, sem medo de levar ponta.
    Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Angelita tem butique de moda jovem, ganha para seu sustento. Entretanto, tem duas manias incuráveis: ciúme doentio pelo baixinho, seu marido, e neura sobre violência urbana. Ela lê tudo sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe de todas as histórias contadas no rádio, televisão e jornais. No fundo, ela ama o alarmismo da imprensa, parece que faz bem à sua mente, se alimenta de fatos tenebrosos. Reconta as histórias de um modo exagerado, terminando com a frase: ninguém suporta mais tanta violência!
      Numa bela tarde de sábado, Angelita foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A violência existe, entretanto, a maioria dos crimes está na faixa de 16 aos 26 anos, entre os traficantes, eles se matam por pontos de venda e lideranças. De repente perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado e quantas pessoas conheciam que foram assaltadas.  Apenas duas mulheres se pronunciaram. Angelita pensou, tentou relembrar algum caso com amigo, nada. Foi para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi realmente assaltado, frustrante para sua neura.
       Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores meninas de programas da cidade. Apanhou a garota, bonita, alta, parecia a Jandira; Janice, a alcoviteira, sabia o gosto do cliente. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ele escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou. Foi ao Pronto Socorro, sutura, alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Imediatamente dirigiu-se à Delegacia de plantão, deu parte, abriu um Boletim de Ocorrência, tinha sido assaltado, levaram o carro, ele dentro. Pararam na praia de Ipioca, deram-lhe uma coronhada, desmaiou. Só acordou depois de algum tempo, levaram carteira, celular, leptop, máquina, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.
        Ao contar a história do assalto em casa, veio um fluxo de felicidade e alegria de dentro de Angelita, ela conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido, logo saiu contando para toda vizinhança como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Angelita. Seu grande ídolo agora é o marido.

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