O movimento que aglutinou a revolta está ligado à demanda do transporte público coletivo. Ponto. Mas a revolta tem origem diversa. Uniu quem está cansado de ser empurrado em ônibus e metrô. De ser tratado como cavalo para seguir a rotina. De tomar cotovelada para subir degrau. De pagar cada vez mais por cada vez menos. De se segurar nas alças do ônibus ou vagão para não se arrebentar na primeira esquina. Mas uniu também quem está cansado de ser tratado como inimigo por um Estado constituído, por lei, a partir do princípio da justiça, da igualdade e da liberdade de ir, vir e se manifestar. E está cansado de não se sentir protegido nem representado. Que cansou de fingir viver em uma democracia plena por apertar alguns números (quase aleatoriamente) em uma urna eletrônica a cada dois anos.
Para funcionar de fato, uma democracia deve ser fundada em instituições sólidas, transparentes, capazes de dialogar e prestar contas. Tudo isso ainda é ralo e raro por aqui. Tanto a Justiça como a cúpula do Legislativo e Executivo – quem define, afinal, as políticas públicas de segurança e transporte – é composta por quem toma decisão se gabando de se lixar a quem contesta, a quem pergunta, a quem, num átimo de infelicidade civil, resolve se questionar sobre a vigência das normas. Normas que, inconscientemente, te pedem para sentar, calar, obedecer, bater palma e participar da vida pública somente a cada dois anos, para eleger um novo poste cercado por decisões arbitrárias, e não consultadas, por todos os lados.

Nenhum comentário:
Postar um comentário