DE MÃOS DADAS
Maria Lúcia acordou-se, amargo na boca,
leve dor de cabeça, havia bebido na noite anterior. Procurou o controle remoto, desligou o ar
condicionado. Veio-lhe a imagem de Marcelo, a tarde de amor terno, carinhoso,
ao mesmo tempo selvagem. Jamais pensou ficar apaixonada por um homem bem mais
velho, podia ser seu pai, além de tudo, casado. Ela não tinha algum sentimento
de culpa, não importava aquela situação camuflada, pouquíssimos amigos sabiam
do caso. Não tinha preconceito em amar um homem mais velho. Melhor na cama que
o ex-marido. Marcelo usava a experiência, sabia mexer nos pontos sensíveis,
devagar, sem pressa, ficava a explorar sua anatomia, enquanto o ex, cocaineiro,
um desastre na cama, mesmo com o belo corpo jovem. Aguentou apenas dois anos de
casados, sem saudade daquela época. Hoje era uma mulher livre, havia a paixão
proibida, entretanto, tinha liberdade, fazia o que queria. Na véspera, depois
da tarde de amor, Maria Lúcia descansou em casa, saiu à noite com um grupo de
amigos, na balada dançou até quase amanhecer o dia.
Olhou
para o relógio, 11 da manhã, levantou-se, abriu a cortina, dia ensolarado,
luminosa manhã. O mar de um verde esmeralda misturava um azul turquesa em suas
águas, pequenas marolas. Contemplando do alto da janela deu-lhe uma sensação de
bem estar, amava sua cidade, sua praia, a vida é bela.
Na
sala encontrou os pais, a irmã mais nova.
- “Lucinha
querida, a noitada foi boa, sua cara de ressaca não nega.” Entregou a irmã.
-
“Foi ótima, saí com as amigas, eu posso, sou adulta dona do meu nariz”.
Ficaram
conversando. Quando Lucinha preparava um lanche, o celular tocou. Era Dudu.
Toda mulher gostosa, solteira, gosta de um amigo homossexual, Dudu não parecia,
não dava para notar, à primeira vista, sua opção no sexo.
-
“Diga Duduzinho! Como está vossa excelência?”
- “Estou
à toa na vida, quero saber da programação nesse belo sábado, que tal nos
encontramos no Acarajé do Alagoinha?”
- “Fechado,
ao meio-dia estarei no Acarajé.”
A
mãe ouvindo a conversa, não perdeu oportunidade para um conselho e um puxão de
orelha.
- “Lucinha,
você já vai sair? Daqui a pouco fica falada, não arranja mais marido. Esse Dudu
parece, não é homem, cuidado com a vida. Quero que você se divirta, mas tenha
juízo.”
- “Minha
mãe essa vida é curta, ou me divirto ou tenho juízo, os dois não combinam”. Deu
uma gargalhada.
Faltavam
10 minutos para o meio-dia, Maria Lúcia deu partida no carro rumo ao encontro,
tomou a avenida beira mar. De repente, sinal vermelho, ela freou, ficou na
espera, ao olhar de lado teve um susto, seu amado Marcelo entrava num
restaurante de mãos dadas com a esposa. Deu-lhe uma sensação de mal estar,
acabou-se a alegria, o espírito jovem, uma depressão veio-lhe no fundo da alma.
Precisou uma buzinada para acordá-la, sinal verde, acelerou o carro, mais
adiante estacionou, colocou a cabeça entre as mãos encostou por cima do volante,
chorou de raiva e pena de si mesma. Custou a se recuperar. Retornou à avenida.
Dudu
estava sentado, camisa vermelha, bem penteado, moço bonito, elegante, copo de
cerveja numa mão, acarajé na outra, ao vê-la fez sinal. Lucinha sentou-se, chorou discretamente, sua
estima lá embaixo, ia tomar um porre, contou ao amigo como encontrou Marcelo.
- “Você
diz não ter preconceito, aceita esse amor proibido. Faz análise, tem cabeça
boa, não entendo esse choque, esse chilique ao ver Marcelo e a esposa.”
- “De
mãozinhas dadas! De mãozinhas dadas não dá para aguentar!”

Acho que Nelson Rodrigues gostaria de ter assinado esse texto. Arretado. Parabéns.
ResponderExcluirDo admirador anônimo.