A
ROSA BRANCA
Assim
que chegou à Casa de Detenção o advogado solicitou o preso Benedito dos Santos.
Dentro de pouco tempo apareceu, escoltado por policial, um moreno magro,
maltrapilho, de uma tristeza infinda no semblante.
-Eu
sou o assassino, apresentou-se como se ofendesse a ele mesmo.
-Não
diga isso Biu, você matou a mulher porque ela lhe traiu, botou-lhe chifre na sua
cama. Oxente! Homem de Deus, você é criminoso, mas não é assassino. Tentou
amenizar o policial, fizeram-se amigos na convivência de quase três anos na
cadeia.
O
advogado pediu franqueza na história.
-
Olhe Benedito, você praticou um crime bárbaro, matou sua mulher, o julgamento
será na próxima semana, eu preciso que me conte como tudo aconteceu desde que
conheceu a vítima.
-
Seu doutor eu vou contar. Sou um assassino sem perdão, matei minha mulher, minha
vida, meu amor. Eu cheguei na capital para melhorar a vida, tomei a profissão de
carroceiro. Vivia num quartinho alugado no Vergel do Lago. Solteiro, meu
trabalho dava para viver, pagava o aluguel, comida, e ainda sobrava para umas farrinhas
e raparigas. Tinha boa freguesia na construção civil, transportava o lixo de metralha
para dar fim ou vender para aterro. Num dia de manhã, sem carrego, a carroça
corria na beira da Lagoa Mundaú quando uma menina atravessou. Atropelei a
coitada, levei-a ao Pronto Socorro. Felizmente quebrou só um braço. Era uma
menina de rua, 16 anos, vivia perambulando perto da Lagoa, pedinte nos sinais
de trânsito, fumando maconha, se prostituindo. A mãe morreu de cachaça, deixou Zefinha
só no mundo, não tinha família na cidade, que nem eu. Outros dias avistei a
menina nas ruas, uma vez parei, a gente conversou muito tempo, eu levei para
meu quarto, passamos a noite tomando cachaça e cruzando feito animal, dei-lhe
algum trocado, ela gostou de mim, eu gostei dela. Todo sábado a gente se
encontrava para beber cachaça e passar o dia vadiando. Fiquei afeiçoado à
menina. Com o tempo apercebi que Zefa era a mulher mais bonita do mundo,
carinhosa, amorosa como ela só. Passamos quase um ano nessa situação, quando um
dia saí para trabalhar eu vi Zefa entrando com um sujeito no motel na beira da
estrada. Tive um ciúme de endoidecer, na minha cabeça ficava vendo ela e o cara
entrar no motel. Foi quando arresolvi me
casar, casar não, pobre não casa, se ajunta. Zefinha ficou feliz da vida, foi
morar comigo no quartinho na beira da Lagoa. Eu disse bem dito, agora era mulher
casada, nada de rua, proibi andar com seus amigos de rua, queria respeito. Ela
era só minha. Foram três anos de muito amor, tudo que eu encontrava de bonito
no lixo, lavava e levava para Zefa. Ela gostava de cozinhar para a gente. No
quintal da casa plantou um bocado de fulô bonita, tinha até rosa branca, era a
que eu gostava mais. Quando a tardinha chegava ela me esperava toda prontinha,
cheirando água de cheiro, e uma rosa branca no cabelo. Felicidade de pobre dura
pouco seu doutor. Um dia me cochicharam, Zefinha sai quando você trabalha, eu
não acreditava no que diziam, outra vez me disseram, era verdade verdadeira,
ela estava levando homem para o quartinho, eu não acreditava, mas aquela
história ficou roendo meus ossos, minha cabeça. No meio da tarde, na hora do
trabalho, voltei para casa, ao entrar no quarto encontrei Zefinha, nuinha,
nuinha com um macho de lado na minha cama. O sangue subiu, fiquei zonzo, não
enxerguei mais nada, puxei a peixeira da bota avancei, nem vi o macho fugir, minha
raiva só via Zefa, foram 17 peixeiradas, matei Zefinha, foi minha morte também.
Sou um assassino, sem Zefinha não me importa viver.
O
advogado durante o júri pediu para Benedito contar a história, sem tirar nem
pôr. Foi condenado, pena mínima, com os três anos preso e boa conduta, o
advogado conseguiu a soltura. Assim que saiu da cadeia, o doutor perguntou o
que ele ia fazer na vida. Ele olhou para o advogado, para o chão, e falou
melancólico: Levar uma rosa branca no cemitério para Zefinha.

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