Páginas

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

MINHA QUERIDA MONARK - ( Uma crônica de Natal )


                                Crônica de Carlito Lima
                                        
  Há quem não goste do Natal, acha melancólico ou coisa parecida, fica triste, deprimido com a proximidade da festa natalina. Entretanto, há quem ame, eu, por exemplo, quando chega o mês de dezembro já me ponho em clima de festa. São tantas as comemorações natalinas e ano novo que o velho fígado reclama, é difícil aparecer em todas as festas que me convidam. Talvez esse minha alegria natalina seja fruto das boas recordações, do que ficou em minha mente e em minha alma dos belos natais de minha infância e juventude.
    A festa de rua se iniciava em dezembro na Praça Sinimbu, depois, Praça da Faculdade. Roda mundo, roda-gigante, navios, carrossel, tiro-ao-alvo, e os pastoris. Que bonito! Viva o cordão azul! Viva o cordão encarnado! Lá vinham as pastoras dançando e cantando as jornadas: “Boa noite meus senhores todos, boa noite senhoras também. Somos pastoras, pastorinhas belas que alegremente vamos à Belém...”  Chamava a Mestra ou outra pastora do encarnado em cena. Ela aparecia, saia rodada, dançando, se requebrando ao som da música, tocando no pequeno pandeiro de lata enfeitado de fitas coloridas. Eu subia ao palco com uma nota de Cr$ 1,00 (um) cruzeiro, prendia-a com presilha, como se estivesse condecorando, em seu vestido, nessa hora não resistia, roçava com a costa da mão os seios da divina pastora, aliás, era esse o objetivo daqueles meninos, maloqueiros, felizes. A pastora saía de cena rubra com o roçar de nossas mãos, dançando para trás, cantando até desaparecer entre as cortinas do palco. Logo depois apareciam todas novamente, outra jornada cantando sorridentes: “Meu São José dai-me licença, para o pastoril dançar. Viemos para adorar, Jesus nasceu para nos salvar.” O pastoril era uma festa dentro da festa de rua. Andávamos em grupo paquerando as meninas desfilando pela calçada. Um olhar, um sorriso, era o bastante para alegrar o coração do jovem. O alto-falante tocava música romântica e dava os recados que eram cobrados ao preço de Cr$ 1,00 (um cruzeiro): “Alô, alô, Cidinha Madeiro, você é a menina que mais brilha nessa festa. Assinado: Você já sabe.” E dedicava música às musas da nossa ingênua e pura adolescência.
          Quando aparecia um grupo de Guerreiro com vistosos chapéus de espelhos enfeitados, era sucesso. Guerreiro é folclore típico das Alagoas, a dança empolga a todos. Em algum local da praça construíam uma embarcação, um navio de taipa, de barro. A “Nau Catarineta” era palco da Chegança, dança folclórica de origem ibérica, tendo como personagens principais, o Almirante, o padre, os marinheiros; as músicas falam em luta entre mouros e cristãos. Muita música na praça, um “Isquenta Muié”, banda de pífano, arrodiava a calçada tocando numa animação carnavalesca.
          Quando davam onze horas da noite retornávamos em bando, cada qual para sua casa na Avenida da Paz. Hora de abrir os presentes embaixo da árvore de Natal, se empanturrar com a ceia, um belo peru e a alegria de receber presentes.  Uma hora da manhã começava a missa no coreto da Avenida, várias famílias reunidas em torno do altar pareciam uma só família. A alegria tomava conta de todos. Durante a juventude o Clube Fênix dava festa dançante com boas orquestras. Depois da festa, dia amanhecendo, voltávamos andando pela praia cantando a alegria da vida.
           Tinha 12 anos quando ganhei no Natal o melhor presente de minha vida. Uma bicicleta Monark, vermelha, aro grande, uma belezura. Naquela noite assisti à missa do coreto montado na bicicleta, torcendo que acabasse rápido. Dei incontáveis voltas em torno da calçada da Avenida até meus pais me botarem para dormir, cansado de tanto pedalar. No outro dia rodei com a bicicleta todo bairro de Jaraguá, Pajuçara, Ponta da Terra. Por muitos anos essa bicicleta foi minha companheira. Às vezes ia para o Colégio Diocesano (Marista) de bicicleta. Aliás, percorri toda Maceió em cima de minha amada Monark. Várias vezes desci a ladeira do Farol perigosamente guiando com os pés no guidón, as mãos soltas, menino sem juízo. Inesquecível presente, surpresa de meus pais. Ainda sinto o cheiro de borracha dos pneus furados, consertados com michelin. Certo vez, correndo, descontrolei-me, bati com a bicicleta num muro, ela entortou, empenou. Mandei consertá-la num mecânico, me plantei na oficina, acompanhando como se ela fosse um parente sendo operado. Maior felicidade ver minha querida amiga renovada, rodando nos trinques. Natal me lembra generosidade, amizade, paz, lembra minha querida Monark, o mais valioso presente de minha vida.


     

Um comentário:

  1. MEU PREZADO CARLITO ESSA SUA CRONICA ME FEZ LEMBRAR NÃO SÓ O NATAL MAIS O PRESENTE QUE RECEBI DE MEU PAI UMA BICICLETA CONVENTRI DE MARCA INGLESA, O MEU AVÔ ERA REPRESENTANTE DE VARIAS COMPANHIAS DE NAVEGAÇÃO E ISTO FACILITOU A COMPRA E A IMPORTAÇÃO DA MESMA,EU ANDAVA NA MESMA SEM FREIO, SEM PARALAMAS O FREIO ERA OS MEUS PÉS, CANSEI DE DESCER AQUELAS LADEIRA INGREMES DE PENEDO EM ALTA VELOCIDADE.FELIZ NATAL PARA VC E TODOS OS SEUS FAMILIARES

    ResponderExcluir